Patativa do Assaré

Patativa do Assaré era o nome artístico (pseudônimo) de Antônio Gonçalves da Silva. Nasceu em 5 de março de 1909, na cidade de Assaré (estado do Ceará). Foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordDedicou sua vida a produção de cultura popular (voltada para o povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino). Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador e poeta. Produziu também literatura de cordel, porém nunca se considerou um cordelista.Sua vida na infância foi marcada por momentos difíceis. Nasceu numa família de agricultores pobres e perdeu a visão de um olho. O pai morreu quando tinha oito anos de idade. A partir deste momento começou a trabalhar na roça para ajudar no sustento da família.Foi estudar numa escola local com doze anos de idade, porém ficou poucos meses nos bancos escolares. Nesta época, começou a escrever seus próprios versos e pequenos textos. Ganhou da mãe uma pequena viola aos dezesseis anos de idade. Muito feliz, passou a escrever e cantar repentes e se apresentar em pequenas festas da cidade.Ganhou o apelido de Patativa, uma alusão ao pássaro de lindo canto, quando tinha vinte anos de idade. Nesta época, começou a viajar por algumas cidades nordestinas para se apresentou como violeiro. Cantou também diversas vezes na rádio Araripe. No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias “Inspiração Nordestina”. Com muita criatividade, retratou aspectos culturais importantes do homem simples do Nordeste. Após este livro, escreveu outros que também fizeram muito sucesso. Ganhou vários prêmios e títulos por suas obras.Patativa do Assaré faleceu no dia 8 de julho de 2002 em sua cidade natal.
Livros:
Inspiração Nordestina - 1956· Inspiração Nordestina: Cantos do Patativa -1967· Cante Lá que Eu Canto Cá - 1978· Ispinho e Fulô - 1988· Balceiro. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 1991· Cordéis - 1993· Aqui Tem Coisa - 1994· Biblioteca de Cordel: Patativa do Assaré - 2000· Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de Assaré - 2001· Ao pé da mesa – 2001
Poemas mais conhecidos:
A Triste Partida · Cante Lá que eu Canto Cá · Coisas do Rio de Janeiro · Meu Protesto · Mote/Glosas · Peixe · O Poeta da Roça · Apelo dum Agricultor · Se Existe Inferno · Vaca estrela e Boi Fubá · Você e Lembra? · Vou Vorá estina.

Cordel é pura cultura.



Literatura de Cordel A literatura de cordel é uma espécie de poesia popular que é impressa e divulgada em folhetos ilustrados com o processo de xilogravura. Também são utilizadas desenhos e clichês zincografados. Ganhou este nome, pois, em Portugal, eram expostos ao povo amarrados em cordões, estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas. A literatura de cordel chegou ao Brasil no século XVIII, através dos portugueses. Aos poucos, foi se tornando cada vez mais popular. Nos dias de hoje, podemos encontrar este tipo de literatura, principalmente na região Nordeste do Brasil. Ainda são vendidos em lonas ou malas estendidas em feiras populares.De custo baixo, geralmente estes pequenos livros são vendidos pelos próprios autores. Fazem grande sucesso em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Este sucesso ocorre em função do preço baixo, do tom humorístico de muitos deles e também por retratarem fatos da vida cotidiana da cidade ou da região. Os principais assuntos retratados nos livretos são: festas, política, secas, disputas, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo, milagres, morte de personalidades etc.Em algumas situações, estes poemas são acompanhados de violas e recitados em praças com a presença do público.
Um dos poetas da literatura de cordel que fez mais sucesso até hoje foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Acredita-se que ele tenha escrito mais de mil folhetos. Mais recentes, podemos citar os poetas José Alves Sobrinho, Homero do Rego Barros,
Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva), Téo Azevedo. Zé Melancia, Zé Vicente, José Pacheco da Rosa, Gonçalo Ferreira da Silva, Chico Traíra, João de Cristo Rei e Ignácio da Catingueira.Vários escritores nordestinos foram influenciados pela literatura de cordel. Dentre eles podemos citar: João Cabral de Melo, Ariano Suassuna, José Lins do Rego e Guimarães Rosa.

(sua pesquisa.com)

"O FILHO DO BRASIL" Cléo Pires beija "Lula" em cena do filme


O ano é 1965. O cenário, um clube de bocha em São Bernardo do Campo. O cartaz anuncia: "Baile de primavera -- Venha dançar". Um globo de discoteca pendurado no teto gira enquanto jovens casais dançam. De um lado da pista de dança, se encontra Lula, ainda imberbe, sentado ao lado de um amigo. Do outro lado, está Cléo Pires, também acompanhada de uma amiga. Os dois trocam olhares tímidos e apaixonados.
O beijo famoso do esperado filme Finalmente, Lula se levanta e se dirige para a mesa onde Cléo está sentada; ela se apruma. Ele a convida para dançar ao som de Sua Estupidez, de Roberto Carlos. Ao fundo, o pulsar de um enorme coração é marcado pelo pisca-pisca de uma luz vermelha. É o momento em que Lula, vivido pelo ator Rui Ricardo Dias, dá o primeiro beijo em Lurdes, interpretada por Cléo Pires, no filme Lula, o Filho do Brasil, cinebiografia do presidente Lula.Dirigido por Fábio Barreto, o longa, baseado no livro escrito por Denise Paraná (que trabalhou como assessora do presidente), começa com o nascimento de Lula, em 1945, e vai até 1980, ano da morte de Lindu, a mãe do político."O filme é todo permeado por Lindu [interpretada por Glória Pires], uma mulher forte, que criou sete filhos sozinha", disse Barreto. "Não é um filme político". A trama também mostrará o primeiro casamento de Lula com Lurdes, que morreu grávida de sete meses, seu envolvimento com o movimento sindical e seu primeiro encontro com Marisa Letícia (papel de Juliana Baroni), a atual primeira-dama. Segundo o diretor Fàbio Barreto, a estréia do filme está prevista para janeiro de 2010.
Fonte:Folha online

Nova Lei de Incentivo à Cultura entra em Consulta Pública


Entidades e produtores culturais, empresas e artistas já podem sugerir mudanças na proposta de projeto de lei que institui o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura (Profic), que vai substituir a Lei n° 8.313, conhecida como Lei Rouanet. A consulta pública foi aberta nesta segunda-feira (23) e ficará disponível por um período de 45 dias. Entre as principais mudanças trazidas pela proposta estão a criação de mais fundos de financiamento direto à cultura e a reconfiguração do sistema de renúncia fiscal, com novas faixas de dedução do imposto de renda devido.
A nova lei começou a ser discutida há seis anos, com seminário Cultura para Todos, que percorreu o Brasil em 2003. Em 2008, ganhou força com o Fórum Nacional de Financiamento da Cultura, que reuniu gestores estaduais e municipais, e com os Diálogos Culturais, nas quais o ministro da Cultura, Juca Ferreira, explicou as linhas gerais da proposta. A consulta pública será realizada pela internet, na página eletrônica da Casa Civil da Presidência da República (www.presidencia.gov.br/casacivil) e no site do Ministério da Cultura (www.cultura.gov.br).
De acordo com o MinC, a renúncia fiscal, principal instrumento da lei atual, não é capaz de abranger a diversidade da cultura brasileira. O mecanismo tende a gerar concentração do volume de recursos, desigualdade na distribuição da verba entre as regiões, baixa participação das empresas e de percepção da aplicação de recursos público, e ao custo operacional e tempo de espera.
"É necessário a construção de uma parceria público-privada mais igualitária, pois é dinheiro público que está sendo utilizado na forma de renúncia, mas o que acontece atualmente é que o investimento maior é do Estado, enquanto a propaganda fica para as empresas. Poucos sabem que o Museu do Futebol e o da Língua Portuguesa foram financiados com recursos públicos", disse o ministro.
Dedução - A renúncia fiscal será mantida, mas novas faixas de dedução serão criadas. Além do máximo de 100 % e do mínimo de 30 % existentes na lei atual, haverá a possibilidade de deduzir 60%, 70%, 80% e 90% dos valores gastos. Quem decidirá em qual faixa de isenção o projeto estará enquadrado será a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC). Dessa forma, os projetos culturais mais bem formulados, que promovam a democratização do acesso ou estimulem a Economia da Cultura poderão ser enquadrados em faixas de isenção maiores.
Novos instrumentos - O Fundo Nacional de Cultura (FNC) será fortalecido e passará a ser o principal instrumento de financiamento, dividido nas áreas de Artes; Cidadania, Identidade e Diversidade Cultural; Memória e Patrimônio Cultural Brasileiros; Livro e Leitura; e Fundo Global de Equalização. O Fundo Setorial do Audiovisual, já em atividade, será mantido.
A nova lei traz, ainda, o Vale Cultura, que tornará disponível aos trabalhadores um valor mensal de R$ 50,00, que poderá ser utilizado para compra de livros e entradas em espetáculos e cinema. O ministro Juca Ferreira anunciou também a Loteria da Cultura - a ser criada por lei específica e os recursos canalizados para o FNC. Para o setor privado, estão previstos atrativos como a divulgação de um ranking das empresas que mais investem em Cultura e a adoção de um Selo de Responsabilidade Cultural.

Idade das Trevas?

Muita gente tem atribuído o comportamento e idéias de integrantes da Igreja Católica a um resquício da mentalidade presente na instituição durante a Idade Média. Foi assim no episódio em que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, anunciou a excomunhão latae sententiae (automática) dos envolvidos no aborto de uma menina de nove anos em Pernambuco, brutalmente estuprada pelo padrasto. A posição do prelado e da Igreja que ele representava foi taxada como "medieval". Puro preconceito. Não contra o religioso, mas contra uma fase da história cujo legado até hoje usufruímos, mas pouco conhecemos.
Não vou discutir aqui o mérito teológico, moral ou religioso das opiniões do arcebispo, mas ouso defender quem não pode contra-argumentar: a própria Idade Média. O conceito de que a era medieval (476 d.C. até 1453) foi um ciclo de trevas, em oposição ao Renascimento e à Antiguidade, surgiu no século 19 forjado pelos liberais, que não hesitaram em acusar esse período histórico de ter interrompido o progresso e a cultura da humanidade, que seriam retomados apenas no século 16. Mas esse preconceito felizmente está perdendo força, apesar das declarações simplistas que, por vezes, surgem, como nesses dias de apaixonados debates sobre a doutrina da Igreja.
Força unificadora
É claro que, como todo período histórico, a era medieval também tem contas a ajustar. Talvez a mais famosa delas seja a Inquisição, em que milhares de pessoas foram mortas por professarem idéias e práticas religiosas contrárias às da Igreja Católica e seus aliados, embora muitas vezes à revelia da própria Igreja.
Mas esse débito é comum a todos os ciclos da História. Os arautos da Antiga certamente não devem se orgulhar da violência generalizada e brutal contra os grupos oprimidos pelos impérios da época e da escravidão; a Moderna, período em que o Brasil foi "descoberto", assistiu ao genocídio de povos americanos, africanos e asiáticos, submetidos à sanha colonialista dos europeus; a Contemporânea, esta em que estamos vivendo, ficará para sempre marcada pelo nazi-fascismo, pelos regimes totalitários comunistas, pelo massacre de grupos étnicos e pelos grandes conflitos bélicos que mataram milhões de seres humanos.
Mas voltemos à nossa Idade Média, o alvo principal das críticas dos "modernistas". Foi precisamente nesse período que o avanço do cristianismo funcionou como força unificadora da Europa, um continente admirado pelo seu patrimônio cultural e humanístico e que tem sólidas raízes cristãs.
Berço do Renascimento
Os avanços conquistados nesse período de quase mil anos foram imensos. Para citar apenas alguns dos mais importantes, temos a criação das universidades, possibilitando a difusão do conhecimento científico; a filosofia tomista (que bebeu nas águas do clássico Aristóteles); a arquitetura gótica; o relógio mecânico; a ótica; o avanço e a diversificação da gastronomia... A lista é enorme.
Os historiadores russos Biriukovitch e Levitski definiram a Idade Média como "um período relevante, pleno de acontecimentos, que viu aparecer novas formas econômicas, sociais e políticas do desenvolvimento da sociedade". E arrematam: "Durante esse período histórico, o desenvolvimento da cultura material e espiritual da humanidade progrediu consideravelmente em relação aos períodos precedentes da história."
Ser retrógrado é, isto sim, não reconhecer a Idade Média como herdeira da Antiguidade e berço do Renascimento, em outra perspectiva, do mundo ocidental como o conhecemos hoje. Se há um culpado nessa história, não é a Idade Média.

Por Vasconcelos Ximenes - Reproduzido de A Gazeta (ES)

Por uma Educação Sustentável


A construção de um país sustentável, capaz de superar os desafios do desenvolvimento e manter a capacidade de oferecer qualidade de vida às futuras gerações, passa necessariamente pela qualificação de cidadão sob o ponto de vista profissional e ético.
O Brasil é um dos países onde mais avança o conceito de sustentabilidade e a aplicação de tecnologias capazes de oferecer alternativas eficientes de desenvolvimento sustentável. No entanto, é também um dos países onde os desafios da superação da miséria são mais evidentes. Nas cidades e no campo a falta de oportunidades e a ruptura de padrões mostram que o atual modelo vigente de desenvolvimento não foi capaz de elevar o país aos níveis de riqueza já alcançados por outros países, apesar de ser a 10ª economia mundial.
Existem alguns consensos globais em torno dos mecanismos de superação da miséria. O principal deles diz que a educação é o caminho universal para o desenvolvimento. Mas, a este desafio enfrentado pelos educadores, associa-se outro, o do desenvolvimento sustentável. Ou seja, não basta mais ser educado, é preciso ser educado para a sustentabilidade. Pois os grandes obstáculos que a humanidade têm pela frente estão relacionados à necessidade de se garantir a renda e a qualidade de vida das gerações presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras conseguirem garantir sua própria sobrevivência com padrões de qualidade iguais ou melhores do que os de hoje.
Este início do século XXI carrega a responsabilidade de quebrar alguns dos paradigmas mais arraigados da sociedade humana. Desde a revolução industrial os homens estão desenvolvendo maneiras de produzir mais e melhor, a custos mais baixos e sem se preocupar com os impactos que isto provoca no meio ambiente, ou como se diz em linguagem econômica: as externalidades do negócio. Hoje está provado por estudos realizados pelas principais universidades e instituições de pesquisas do mundo que estas “externalidades” estão comprometendo de forma global as qualidades da Terra para manter a vida humana nos padrões atuais. O planeta está perdendo a capacidade de prestar os “serviços ambientais” necessários à manutenção da vida humana e suas atividades econômicas.
É necessário que a humanidade repense seu processo civilizatório. É preciso que se construam novos paradigmas que tornarão possível às empresas e governos garantir os produtos e serviços que darão as futuras gerações o conforto com o qual a sociedade atual está acostumada. E, para isto, será necessária muita inovação, na medida em que as soluções para os atuais problemas do processo desenvolvimentista não estão no passado, nem das empresas e nem dos governos.
Os desafios começam na construção dos conceitos de sustentabilidade que deverão servir como base para o desenvolvimento de uma nova economia. Modelos de produção e consumo capazes de preservar os recursos naturais, atuar com eficiência energética e incorporar padrões éticos que permitam a percepção de valores sociais e ambientais intangíveis.
Uma organização sustentável precisa ser economicamente lucrativa, ambientalmente correta e socialmente responsável. Mais, as ações de sustentabilidade precisam ser parte da gestão das organizações e não apenas ações pontuais.
As empresas estão habituadas a realizar ações de filantropia, onde doam seus recursos, sejam financeiros ou materiais, para a realização de eventos em prol de terceiros. Estas ações são o primeiro passo em uma escalada em direção à sustentabilidade. Têm apenas o caráter eventual ou até mesmo de marketing. O segundo passo são as ações de Responsabilidade Social. Neste caso as empresas assumem compromissos e estabelecem metas de desempenho para suas ações socioambientais.
Empresas socialmente responsáveis atuam além do que exige a lei, de forma permanente e como parte de seu planejamento estratégico. Existe na Bíblia um antigo provérbio que muito bem se aplica na definição dos conceitos de Filantropia, Responsabilidade Social e Sustentabilidade:
• Filantropia: é dar o peixe a quem tem fome • Responsabilidade Social: é ensinar a pescar • Sustentabilidade: é cuidar da qualidade da água do rio, preservar suas margens e matas ciliares,suas nascentes e cuidar para que não seja poluído e nem assoreado, cuidar para que exista peixe para sempre.
Ser sustentável é, portanto, o exercício cotidiano da responsabilidade e a busca permanente por menos e menores riscos e externalidades negativas. E esta forma de gestão deixa de ser apenas uma busca da satisfação dos acionistas, para colocar a organização em uma nova trajetória, uma onde sua ação passa a ser parte do processo civilizatório que deverá levar a sociedade humana a ter mais e melhor qualidade de vida nos próximos séculos
Por Dal Marcondes

As Mulheres e os Direitos Politicos no Brasil















É preciso sempre lembrar a situação degradante que viveram as mulheres durante séculos e a luta persistente que tiveram de travar para conseguirem se firmar como cidadãs portadoras de direitos. É claro que muito ainda falta para ser conquistado, mas olhando para trás vemos o quanto já se caminhou. No Brasil, por exemplo, as mulheres puderam se matricular em estabelecimentos de ensino em 1827. O direito a cursar uma faculdade só foi adquirido 52 anos depois. Apenas em 1887 o país formaria sua primeira médica. As primeiras mulheres que ousaram a dar esse passo foram socialmente segregadas.
O primeiro Código Civil brasileiro, aprovado em 1916, reafirmou muitas das descriminações contra a mulher. Escreveu a professora Lígia Quartim de Moraes: “Com o casamento, a mulher perdia sua capacidade civil plena. Cabia ao marido a autorização para que ela pudesse trabalhar, realizar transações financeiras e fixar residência. Além disso, o Código Civil punia severamente a mulher vista como ‘desonesta’, considerava a não virgindade da mulher como motivo de anulação do casamento (...) e permitia que a filha suspeita de ‘desonestidade’, isto é, manter relações sexuais fora do casamento, fosse deserdada”. As mulheres casadas – ou sob o pátrio poder – eram consideradas incapazes juridicamente, como as crianças, os ‘deficientes mentais’ e os mendigos. Como não poderia deixar de ser, desde os primórdios da sociedade brasileira, as mulheres também foram excluídas de todo e qualquer direito político. Por exemplo, as constituições do Império (1824) e da República (1891) não lhes concederam o direito de votar e nem de serem votadas. Uma situação que persistiria até as primeiras décadas do século 20. Eram, portanto, cidadãs de segunda categoria. Neste período sombrio elas não ficaram caladas. No entanto, só muito recentemente esta história da resistência feminina começou a ser desvendada pela historiografia. Elas lutaram pelo direito à educação e pelos seus direitos civis e políticos. Também se envolveram, na medida de suas possibilidades, nos grandes movimentos que ajudaram a construir a nação, como as lutas pela independência, abolição da escravidão, proclamação da República etc. A primeira feminista brasileira que se tem notícia foi a potiguar Nísia Floresta (1809-1885). Ela se destacou como educadora, montando e dirigindo diversas escolas femininas no país. Achava que a educação era o primeiro passo para emancipação da mulher. Traduziu e publicou “Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens”, manifesto feminista de Mary Wollstonecraft. Foi obrigada a viver 28 anos na Europa e lá travou contato com as idéias mais avançadas. De volta ao Brasil apoiou o movimento abolicionista e republicano. Nísia era uma pessoa muito à frente do seu tempo.
Nisia Floresta achava que a educação era o primeiro passo para emancipação da mulher. Entretanto, podemos dizer que embrião do movimento de mulheres foi a imprensa alternativa feminina, surgida em meados do século 19. Em 1852, a jornalista Juana Noronha fundou e dirigiu o primeiro jornal produzido por mulheres: “Jornal das Senhoras”. No ano de 1873, a professora Francisca Motta Diniz criou “O sexo feminino”. Em um de seus editoriais afirmava: “Não sabemos em que grande república ou republiqueta a mulher deixe de ser escrava e goze de direitos políticos, como o de votar e ser votada. O que é inegável é que em todo o mundo, bárbaro e civilizado, a mulher é escrava”. O jornal se envolveria na grande campanha pela abolição da escravatura. Inúmeros outros jornais femininos surgiriam. A maior parte deles teve vida curta e não era revolucionária - nem ao menos abertamente feminista -, mas ajudaram a conscientizar as mulheres sobre o seu papel subalterno na sociedade. Este artigo, no entanto, se concentrará na luta das mulheres pelos direitos políticos, especialmente o direito de votar e ser votada. Na luta pelo sufrágio feminino Desde meados do século 19, as mulheres começaram a tentar romper o cerco que as envolvia e conquistar seus direitos políticos. O voto feminino foi um dos temas tratados pelos deputados que elaboraram a primeira constituição republicana (1891). Contudo, o texto final acabou não deixando clara a situação política da mulher. Ele não proibia explicitamente o voto feminino, mas também o garantia de maneira cristalina. A ambigüidade na redação permitiu que a grande maioria dos legisladores e o próprio poder judiciário interpretassem ao seu bel prazer o que pretendiam os constituintes. O resultado foi que as mulheres tiveram recusado o seu direito ao voto por várias décadas. As argumentações dos anti-feministas radicais eram as mais execráveis. O deputado Tito Lívio afirmou que as mulheres tinham “cérebros infantis” e seriam portadoras de uma “inferioridade mental” e um “retardo evolutivo” em relação aos homens. Lacerda Coutinho, por sua vez, disse que “as mulheres tinham funções (biológicas) que os homens não tinham e essas funções eram tão delicadas (...) que bastava a menor perturbação nervosa, um susto, uma momento de excitação, para que elas se pervertessem”. A maioria dos opositores ao voto feminino argumentava de maneira diferente. Sustentava a superioridade moral da mulher e que, justamente por isso, ela era incompatível com a política. Ela deveria ser protegida pela sociedade deste mal. Deus e/ou a natureza tinham reservado para ela um outro papel, mais nobre, o de “rainha do lar”. Essa, por exemplo, era a visão dos positivistas. As mulheres leram o texto constitucional de outra forma. Se ele explicitava os elementos que estavam excluídos (os mendigos, analfabetos, as praças de pré, os religiosos de ordens monásticas sujeitas a voto de obediência) e entre eles não se encontrava referência às mulheres, isso era uma comprovação de que o voto feminino não estava vedado. Elas usaram essa pequena brecha para tentar romper o dique. Ao longo dos anos várias mulheres, em várias regiões do país, tentaram se alistar como eleitoras. Em 1910, diante das constantes recusas, algumas mulheres de vanguarda formaram o Partido Republicano Feminino. Ainda que pequeno, ele mostrava o grau de consciência e organização atingido pelas mulheres brasileiras no início do século 20. Entre suas fundadoras estavam a professora Leolinda Daltro e a escritora Gilka Machado. Esse aguerrido partido chegou a promover em novembro de 1917 uma passeata com quase 100 mulheres no centro do Rio de Janeiro. Não deixava de ser uma pequena revolução. No mesmo ano, o deputado socialista Maurício de Lacerda apresentou um projeto estabelecendo o voto feminino, que não chegou a ser apreciado pela Câmara. Naquela época uma outra personagem entrou em cena: Bertha Lutz. Filha de um dos mais importantes cientistas brasileiros, Adolfo Lutz, estudou na Sorbonne e formou-se em biologia. Na França entrou em contato com as idéias feministas que fervilhavam em solo europeu.
Bertha Lutz, entre outras coisas, organizou o 1º Congresso Feminista e fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino em 1922 De volta ao Brasil em 1918, imediatamente envolveu-se na luta pelo voto feminino. Na influente Revista da Semana afirmou: “As mulheres russas, finlandesas, dinamarquesas e inglesas (...) já partilham ou brevemente partilharão do governo, não só contribuindo com o voto como podendo ser elas próprias eleitas para o exercício do Poder Legislativo (...) Só as mulheres morenas continuam, não direi cativas, mas subalternas (...) Todos os dias se lêem nos jornais e nas revistas do Rio apreciações deprimentes sobre a mulher. Não há, talvez, cidade no mundo onde menos se respeite a mulher.”Membro da elite econômica, política e intelectual brasileira ela teve algumas condições para a sua atuação que outras não tiveram. No ano seguinte (1919), foi indicada pelo governo brasileiro para participar da reunião do Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho. Ali foi aprovado o princípio de salário igual para trabalho igual, sem distinção de sexo. Ela também representou o país na 1ª Conferência Pan-Americana da Mulher, realizada em abril de 1922. Nos Estados Unidos, onde se realizou o encontro, entrou em contato com Carrie Chapman Catt. Esta representava uma corrente menos radical do movimento feminista internacional e condenava os métodos radicais das “sufragettes” européias, especialmente britânicas. Bertha Lutz, numa entrevista, afirmou que a orientação da senhora Carrie era “muito salutar, pois o movimento nos Estados Unidos tem sido muito digno e completamente alheio aos métodos violentos empregados por alguns países europeus”. Esses métodos pacíficos se adequavam mais à condição social das feministas brasileiras daquele tempo. Ainda em 1922, Bertha organizou o 1º Congresso Feminista e fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). Esta foi primeira entidade feminista brasileira com expressão nacional e internacional. Entre os seus objetivos estavam: “assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa constituição lhe confere” e “estreitar os laços de amizade com os demais países americanos a fim de garantir a manutenção perpétua da Paz e da justiça no Hemisfério Ocidental”. A referência ao “hemisfério ocidental” não era casual e refletia a ideologia predominante no movimento. Um congresso jurídico realizado no Rio de Janeiro aprovou por 28 votos contra apenas 4 resoluções que diziam: “1º) A mulher não é, moral nem intelectualmente, inapta para o exercício dos direitos políticos; 2º) Em face da Constituição Federal, não é proibido às mulheres o exercício dos direitos políticos”. O prestigiado Ruy Barbosa também passou a defender a tese da constitucionalidade do voto feminino. No Congresso Nacional também crescia o número de parlamentares favoráveis ao voto feminino. Alguns projetos chegaram mesmo a serem aprovados nas comissões e em primeira votação nas duas casas legislativas. A vitória eleitoral de Arthur Bernardes – um opositor do voto feminino – representou um duro golpe para os objetivos da FBPF. O seu governo foi marcado pelas rebeliões tenentistas, o permanente Estado de Sítio e perseguições políticas aos opositores. Na eleição presidencial seguinte, em 1926, Washington Luís incluiu na sua plataforma eleitoral o voto feminino. Sua vitória animou as militantes feministas. A luta foi retomada no parlamento e fora dele. O estopim foi a proposta de realização de uma reforma na lei eleitoral. Novamente foram apresentados projetos que garantiam o voto para as mulheres. As Comissões de Justiça deram pareceres favoráveis aos projetos. As entidades femininas fizeram um abaixo-assinado com mais de duas mil assinaturas – em geral, de mulheres de projeção social. Uma comissão passou a acompanhar de perto o trabalho parlamentar. Tudo indicava que, desta vez, a situação seria resolvida favoravelmente às mulheres. Contudo, o projeto que instituía o voto feminino acabou não sendo votado, pois dois senadores apresentaram emendas desfigurando-o. Uma das emendas elevava a idade mínima para votação e eleição de 21 para 35 anos, com o objetivo de evitar que “meninas de pouca idade” fossem eleitas para o Congresso. A outra emenda também estabelecia o voto diferenciado para mulheres. Afirmava ela: “Podem votar e ser votada (...) as mulheres diplomadas com títulos científicos e de professora, que não estiverem sob poder marital nem paterno”. A matéria voltou para a Comissão de Justiça que rejeitou as emendas. O projeto teve que entrar na lista de espera para nova votação que nunca ocorreria. Mas o dique começava a ser rompido. Juvenal Lamartine havia sido um dos senadores que mais defenderam a proposta do voto para as mulheres e, por isso mesmo, foi apoiado por elas na sua campanha ao governo do Rio Grande do Norte. Antes mesmo de tomar posse, solicitou que seus correligionários na Assembléia Legislativa aprovassem o projeto que estabelecia o voto feminino. Assim, as mulheres potiguares foram as primeiras a usufruir desse direito. Júlia Alves Barbosa foi eleita intendente (vereadora) em Natal e Alzira Soriano eleita prefeita no município de Lajes, também no Rio Grande do Norte. As primeiras mulheres a assumirem cargos no legislativo e executivo no país. No ano seguinte, os votos femininos dados na eleição para o senado foram cassados pela Comissão de Poderes do Congresso Nacional. Segundo ela, as mulheres poderiam votar apenas nas eleições para as câmaras municipais e assembléia legislativa do Rio Grande do Norte, mas não nas eleições federais A FBPF, em protesto, lançou um duro Manifesto à Nação. Ficava cada vez mais claro para algumas mulheres que não seria aquele regime decadente que garantiria o seu direito ao voto. A direção da FBPF procurava se afastar da política partidária – embora tivesse ligação com setores das oligarquias presentes no poder. Quando Nathércia Silveira, dirigente nacional, se envolveu abertamente na campanha de Getúlio Vargas teve que se afastar da entidade. Logo em após a vitória da revolução de 1930, ela fundou a Aliança Nacional de Mulheres (ANM) que congregou mais 3 mil sócias e procurou dar sustentação política e social ao novo regime.
A conquista do voto feminino A primeira proposta de código eleitoral feita pelo governo provisório de Vargas ainda limitava o voto feminino. Segundo ela, só poderiam votar as mulheres solteiras e viúvas acima de 21 anos e as casadas apenas com autorização dos maridos. Houve uma grande campanha unificada entre a ANM e a FBPF para derrubar tais restrições. As líderes feministas se encontraram pessoalmente com o próprio Vargas e tiveram suas reivindicações atendidas. O novo Código Eleitoral, promulgado em 1932, garantiu o seu direito de votar e serem votadas. Essa prerrogativa seria exercida, pela primeira vez, na eleição da Assembléia Nacional Constituinte de 1934. Assim, o Brasil se tornou o quarto país da América a estabelecer o voto feminino. Antes dele haviam concedido o Canadá, Estados Unidos e Equador. A paulista Carlota Pereira de Queiróz foi a primeira mulher eleita para a Câmara dos Deputados. Ela era formada em medicina e um membro destacado da elite paulista. Berta Lutz, apesar de seu esforço, não conseguiu se eleger pelo Rio de Janeiro. Ela ficaria na primeira suplência. Elegeram-se deputadas estaduais em Alagoas, Bahia, Sergipe, São Paulo e Amazonas. No sul teria que esperar um pouco mais. Vargas indicou Bertha e Nathércia, como representantes das mulheres brasileiras, para a comissão especial encarregada de elaborar a proposta de constituição federal que seria apreciada pelo Congresso. Um fato inédito na história política brasileira. A Constituição de 1934 iria estabelecer claramente, sem ambiguidade, o direito de voto para as mulheres. Bertha assumiria sua vaga na Câmara dos Deputados em 1936. Naquela conjuntura de crise cresceu a influência da esquerda entre as mulheres. Resultado disso é que, em 1934, foi fundada a União Feminina. Ela se integraria à Aliança Nacional Libertadora, que tinha participação de socialistas, comunistas e elementos antiimperialistas. Após a cassação desta entidade e do esmagamento do levante aliancista, ocorrido em novembro de 1935, as principais dirigentes da União Feminina foram presas. Em seguida a FBPF e demais entidades femininas sofreriam um duro golpe com a decretação do Estado Novo em 1937. Sem democracia política, o movimento feminino sofreu um refluxo importante. As operárias, embora tivessem grande atuação nas greves pelas conquistas de salários e melhores condições de trabalho, não tiveram grande atuação na luta por direitos políticos. Isso estava ligado às próprias vicissitudes do movimento operário brasileiro daquela época. Os anarquistas, força hegemônica até meados da década de 1920, negavam a importância da atuação política institucional e não se incorporaram na luta pelo sufrágio universal, que consideravam improcedente. O próprio Partido Comunista, recém-criado, ainda padecia de certo obreirismo e pouquíssima inserção junto às mulheres, mesmo as trabalhadoras. Assim, a luta pelo sufrágio feminino foi travada fundamentalmente pelos setores de vanguarda da burguesia e da pequena burguesia urbana. Isso teve conseqüências na ideologia e nas formas de organização e de luta do movimento feminista brasileiro do início do século 20. Ele não teve bases sociais populares e, por isso, não se formou uma forte corrente de esquerda no seu interior como aconteceu em alguns países europeus.
Por Augusto Buonicore